1. Culto Cristão na Perspectiva da Prática Pastoral

Alberto Matos, PhD

O conteúdo da disciplina “Culto Cristão na Perspectiva das Ciências Humanas” trouxe uma contribuição significativa à nossa prática pastoral, pois descortinou um cenário de grande amplitude histórica, antropológica, psicológica e pedagógica para o estudo e pesquisa sobre o culto cristão. Outrossim, outorgou uma gama de informações e desafios para se rever os conceitos em uso litúrgico atual, gerando as condições necessárias na elaboração de princípios para uma prática litúrgica adequada e formulação de planejamento litúrgico que contemple a dimensão antropológica do culto cristão.

1. Aprendizado proporcionado pela disciplina

A disciplina contemplou-nos logo de início com uma visão que redimensionou conceitos importantíssimos sobre a inteireza do ser humano e as relações entre ritualidade, fé, experiência ritual e espiritualidade litúrgica. Em seguida, fomos envolvidos pela experiência do Laboratório Litúrgico nos proporcionando uma vivência litúrgica que as aulas teóricas jamais poderiam nos oferecer. A importância da vivência do Laboratório Litúrgico foi vital para o objetivo a ser alcançado na disciplina, levando-nos a considerar que a realização do LL é inegociável como prática sensibilizadora e conscientizadora para a formação litúrgica pretendida. O aprofundamento da temática a partir de textos de Buyst, Baronto, Von Allmen, Ormonde, Blank e Leloup contribuiu significadamente para a instrução formativa dos educandos quanto a vários aspectos da relação entre as ciências humanas e o culto cristão.

2.Identificação Profissional , Institucional e Perfil Antropológico do Brasiliense

• 2.1.Profissional e Institucional- desenvolvo as minhas atividades ministeriais em Brasília, trabalhando como pastor na implantação de uma comunidade local, na cidade-satélite do Guará, a Igreja Evangélica Congregacional.

• 2.2.Perfil Antropológico do Brasiliense – o brasiliense, quando adere ao cristianismo, adentra na comunidade religiosa trazendo com ele os carrapixos[1] citadinos atípicos e tem tremendas dificuldades para exercer a vida cristã. Ele traz dentro de si uma desassociação entre a parte material (corpo) e a parte imaterial (mente, alma e espírito) do ser humano. Não consegue se achar como um todo que precisa ser tratado como ser completo; antes, cria repartições em sua vida. Possui dificuldades para vivenciar relacionamentos com seus pares, pois não foi criado com relacionamentos abertos e possibilidades de novos relacionamentos. Apresenta medo na hora de manifestar os seus sentimentos para com o seu próximo, devido ao fato de não desenvolver relacionamentos em que a confiança entrelaça e nutre as pessoas no exercício da amizade e da fraternidade. Tem barreiras para ser aceito em grupos, uma vez que ele mesmo tem dificuldade para aceitar pessoas. Vive relacionamentos superficiais, imaginários e artificiais.Convive com pessoas que não se encontram com outras pessoas e que fogem das possibilidades de se encontrarem com outras, porque receiam o fato de serem expostas em seus limites relacionais. Não nutre relacionamentos em que haja compromisso, pois compromisso gera envolvimento profundo. Diante da necessidade do próximo, ele faz como a galinha que dá somente os ovos para atender ao faminto, mas jamais faria como o porco que dá a própria vida para que o faminto tenha o seu toucinho na feijoada. A participação dele num projeto social para socorro aos necessitados restringe-se a uma atitude originada no materialismo de sua vida: Ele paga para alguém socorrer o necessitado, mas jamais desce ao fundo do poço aonde este necessitado possa estar. Vive procurando por fórmulas mágicas na religião para encontrar as soluções das quais necessita para a sua vida, mas não possui a habilidade ou o desejo de desenvolver uma vida cristã sadia vivenciada a cada dia. Conseqüentemente, não há uma assiduidade em sua ida ao templo para não ser envolvido numa ativa participação litúrgica comunitária; se a sua presença no templo for constante, das duas uma , ou ele teve uma experiência transcendental ou está com um grande problema e, desesperado, busca o alívio mágico.

3.Incorporação do aprendizado proporcionado pela disciplina à Prática Pastoral

Diante deste quadro supracitado, surge naturalmente o questionamento pastoral: Como alcançar este brasiliense ?
A disciplina ofereceu-nos grandes possibilidades para trabalhar as grandes dificuldades encontradas na sociedade brasiliense. Ela nos trouxe um descortinar de uma dimensão muito ampla quando viabilizou a possibilidade de estabelecer a conexão entre a porção material(corpo) e a imaterial (mente, alma e espírito) do ser humano, integralizando-o na sua vivência e ajudando o mesmo a firmar-se na vida cristã através da relação entre a ritualidade, fé, experiência ritual e espiritualidade litúrgica.
O grande desafio agora é estabelecer pontes pelas quais possamos trafegar conduzindo e resgatando os valores aprendidos para a prática litúrgica cotidiana.
Abordaremos a fundamentação bíblico-teológica e antropológica. Depois, falaremos sobre os resgates dos ritos , da ação ritual como fonte de espiritualidade e da necessidade de se investir na aprendizagem da experiência litúrgica.

3.1. Fundamentação bíblico-teológica – toda vida cultual do povo de Deus emana da própria Beleza Divina e do próprio ato de culto que foi instituído por Ele: “Fazei isto em Memória de Mim”. Este Deus que Se Encarnou, assumindo a forma humana tocou-nos da forma mais profunda que alguém poderia usar para realizar tal façanha. Se fez um de nós, assumindo as nossas dimensões humanas para revelar as Suas dimensões divinas e fazer com que fóssemos participantes delas. Este ato memorial instituído pelo Senhor Jesus Cristo é mais do que uma lembrança evocada do passado, é mais do que algo simbólico…é a anamnese. Esta anamnese consiste em recapitular o passado e o futuro da história da salvação. Ela traz o passado e o futuro para o “hoje”do cristão. Esta ação dá-se através do rito da Eucaristia, do Batismo, da Páscoa, etc. O rito, ou seja, a repetição, é nas palavras do apóstolo Paulo, “segurança” para os cristãos [2]. As ações rituais são imprescindíveis para a fé dos cristãos e de suas experiências religiosas. Elas, as ações rituais, são a codificação e condensação da fé cristã, pois “cremos naquilo que celebramos e celebramos aquilo em que cremos”[3].
A fé cristã para manifestar-se na vida das pessoas necessita dos ritos. Os ritos se não forem bem trabalhados se esvaziam e se transformam em coisas ocas. Ritos sem ritualidade é ritualismo. A ritualidade vivifica os ritos. É a ação do Espírito Santo [4]que quebra o esvaziamento dos ritos, é o Cristo Ressurreto que toca a vida dos cristãos, renovando-os para a vida. Os cristãos falam, cantam, andam, oram, ajudam, compartilham e levam as cargas uns dos outros porque foram tocados pelo Cristo. Tocados por Cristo, os cristãos saem a tocar a outros. A liturgia é uma ação e experiência comunitária, algo de todos e para todos.
Na experiência litúrgica cada cristão conhece por dentro o conteúdo da fé, pois a ação litúrgica é expressão objetiva da fé cristã[5]. Nesta ação litúrgica, os partícipes assimilam e se apossam em nível pessoal, existencial, subjetivo, aquilo que o rito expressa objetivamente: a atuação pascal de Deus[6]…Esta experiência litúrgica envolve a inteireza do ser do cristão; todas as áreas da vida do cristão são alcançadas. A experiência litúrgica é uma experiência ritual da ação pascalizante do Cristo Ressuscitado no Espírito, pelo qual os participantes da ação litúrgica se deixam atingir e transformar gradativamente naquilo que o rito significa[7]. Esta transformação pode ser chamada de espiritualidade litúrgica, significando o processo pelo qual o cristão nutre-se, amadurece, aperfeiçoa e chega à maturidade; isto acontece com a participação dele na liturgia.

3.2. Fundamentação antropológica – segundo Ione Buyst o sujeito da liturgia são pessoas humanas e, devido a este fato, não podemos separar a dimensão teológica da dimensão antropológica[8]. O ser humano é quem vivencia a aliança que Deus estabeleceu com ele; este ser humano crê e cultua a este Deus. Portanto, precisa haver um enlarguecimento da base antropológica na teologia[9].
A ação litúrgica envolve a pessoa em todo o seu ser. As dimensões humanas por inteiro são alcançadas e participam daquilo que a liturgia expressa: o mistério da salvação realizado em Cristo Jesus! Esta ação é conjunta em todas as dimensões do ser humano, ou seja, na unidade do ser. Há uma unidade e uma totalidade no ser humano. Deus age na totalidade do ser.
Não se pode pressupor uma visão antropológica que divida o ser humano em duas partes – alma e corpo. O ser humano é mais do que o fruto de uma reflexão dualista. O ser humano não é apenas uma alma e o corpo separados um do outro; ora o corpo age, ora a alma age. Também é muito mais do que a soma destas duas partes, que poderia resultar num ser humano com uma alma e um corpo. A soma das partes que constituem o ser humano é uma totalidade de inteireza, a inteireza do ser.
Este ser humano por inteiro, age e interage, com toda a dimensão e inteireza do seu ser. Até mesmo quando os seus lábios cessam de falar, ele continua comunicando-se com o seu silêncio, seus gestos, suas atitudes, sua presença, seu calor humano, sua participação, sua espontaneidade, sua alegria, sua tristeza, seu apoio, sua empatia, seu olhar, etc. Um ser humano inteiro somente poderia agir por inteiro diante de seu semelhante. Não poderia esperar que partes da dimensão dele estivessem vivas e outras, estivem mortas.
É com a inteireza do seu ser que o cristão estende a sua mão para cumprimentar a alguém, que a levanta puramente diante de Deus para bendizê-lo, para suplicar algo a seu Criador e Deus, leva a sua oferta à mesa do altar e com ela estendida sobre aqueles que se dizem seus inimigos, abençoa-os diante do Senhor!

O resgate dos ritos

Em nossa prática pastoral temos iniciado um projeto de valorização dos ritos[10]. Temos conscientizado a comunidade acerca de sua real importância através da execução dos próprios ritos (Eucaristia, Batismo, Imposição das Mãos, Gesto da Paz, etc.). Cada momento tem sido muito especial para a comunidade quando lhe damos a oportunidade de vivenciar o rito, como gesto humano. Esta participação da comunidade na execução dos ritos desperta não somente a ação corporal, mas sobretudo as dimensões cognitiva e afetiva. Cada gesto aguça a participação das pessoas quando elas mesmas sentem e vivenciam um olhar, um cheirar, um ouvir, um degustar, um apalpar. Todas estas sensações são únicas para cada pessoa da comunidade, são momentos particulares. Entretanto, vivencia-se uma unidade por parte da comunidade como um todo, quando ela se vê envolvida pela ritualidade na execução do rito. E aí, constata-se de que os ritos interligam as várias dimensões dentro das pessoas e integram a pessoa à comunidade. As pessoas da comunidade agem e interagem constantemente na vida litúrgica a cada celebração, pois elas são responsáveis pelo planejamento e execução. Como pastor, apenas ofereço as ferramentas necessárias para que as pessoas façam a liturgia em cada celebração. É muito interessante acompanhar a comunidade valorizando os ritos e, esta valorização, é plenamente observável no esmero com o qual a comunidade dedica-se em cada celebração.

A ação ritual como fonte de espiritualidade

A partir do aprendizado desta disciplina, desencadearemos um trabalho voltado para o fato da ação ritual como fonte de espiritualidade. Isto faremos proporcionando vivências com grupos da comunidade. Realçaremos a valorização da corporeidade. Orientando as pessoas a levar a sério os gestos expressados através de seus corpos, tais como: falar, cantar, orar, cheirar, degustar, ver, ouvir, apalpar, tocar nas pessoas, deixar que outras pessoas lhe toquem. Vamos oferecer momentos vivenciais para uma conscientização sobre o corpo. Oportunamente, vamos facultar momentos vivenciais além da utilização mecânica do corpo. Oferecer condições para que as pessoas possam falar sem palavra alguma, possam ouvir o silêncio, ver no escuro, sentir o cheiro da verdade, dançar com a alma e cantar sem o uso da voz, mas expressando-se com todo o ser. Investiremos na superação do racionalismo e do verbalismo, criando momentos de sensibilização com símbolos e conduziremos as pessoas da comunidade a participarem cada vez mais ativamente dos ritos[11].

Investir na aprendizagem da experiência litúrgica

Criaremos vias que possibilitem à comunidade uma participação litúrgica em nível de experiência. Serão caminhos e motivações que despertem a alma para o aprendizado da interiorização dos símbolos, dos gestos, dos cantos, das palavras ouvidas e ditas[12]. Abriremos espaços para a vivência interior, criando momentos de silêncio após a leitura da Palavra de Deus, entre as orações, após a prédica, etc. Geraremos espaços para uma meditação ativa[13] na vida das pessoas.
A experiência litúrgica é uma maneira espiritual e comunitária de celebrar e de participar da liturgia[14]. Ela situa-se na procura de expressar a dimensão subjetiva, interior, afetiva, mística da liturgia, completando a dimensão objetiva, corporal, racional, profética e comunitária[15]. A ação litúrgica é expressão objetiva da fé. A cada participação das pessoas na liturgia, ela passa a ser conhecida como experiência ritual; esta experiência conduz a pessoa cristã a subjetivar a ação litúrgica para aplicá-la à sua vida.

Formando uma nova geração

Em toda a nossa comunidade estaremos sempre trabalhando o gesto corporal, sentido teológico-litúrgico e a atitude espiritual. A cada participação da comunidade para celebrar envolveremos a todos em atitudes celebrativas que atinjam toda a dimensão e inteireza do ser em cada pessoa. Trabalharemos para que todo o ser seja despertado em cada celebração. Que cada ser humano veja, sinta, apalpe, deguste, cheire – use toda a inteireza de seu ser em cada celebração. Que ele abrace, cante, ande ao encontro de seu irmão, apoie, leve as cargas, una-se aos outros e saiba que ele é apenas um membro, mas ali está o Corpo de Cristo – a Igreja.
A cada celebração realçaremos o sentido teológico-litúrgico, enfatizaremos a experiência do divino em Jesus Cristo, relembraremos o conjunto das crenças cristãs e conclamaremos as atitudes básicas que surgem naturalmente das convicções. Faremos uso de expressões rituais a serviço da reprodução da experiência, com o propósito de despertar cada pessoa para as crenças cristãs e as atitudes decorrentes delas. Através das práticas rituais que objetivam a fé, cremos que as pessoas irão subjetivá-la para a sua realidade pessoal. Nesta subjetivação da fé, cada pessoa envolver-se-á com o transcedente e participará cada vez mais como aqueles que exercem uma ação ritual.
Diminuiremos cada vez mais as liturgias verbalistas e daremos espaço para liturgias que alcancem a corporeidade de cada cristão. Uma liturgia que toque corpo, mente, alma e espírito. Uma liturgia total a serviço de um Deus que em Sua totalidade se encontra com o Seu povo.
Enfatizaremos uma liturgia que está ligada aos problemas da vida de cada cristão; uma liturgia que tem sentido e faz sentido na realidade de vida do cristão. Uma liturgia que revela o transcendente, mas que revela o imanente. É o Deus de longe (Infinito, Imortal, Soberano, etc.), mas é o Deus de perto (Encarnado, que foi tentado em todas as coisas que somos tentados, conhece as nossas fraquezas). É o Deus que venceu a morte, o mundo e o diabo! Ele pode nos socorrer, porque Ele já venceu os inimigos de Seu povo. A cada dia o cristão toma posse desta vitória na sua caminhada para a Jerusalém Celestial, através da ação litúrgica.

Conclusão

Não basta o conhecimento da mente sobre este assunto, é necessário apossar-se dele com toda a inteireza do ser. Experimentar a cada dia a corporeidade, o sentido teológico-litúrgico e a atitude espiritual. Crescer na apropriação e vivência da experiência litúrgica. Entender que há um desafio contínuo e que somos responsáveis por fazer e divulgar que não haverá participação na liturgia, sem formação litúrgica[16]. Em lugar de apenas transmitir conhecimento às pessoas, necessita-se de se levar as pessoas a vivenciarem…experimentarem a liturgia[17]. Isto, só será possível se cada liturgista formador se aprofundar na temática litúrgica, preparar-se e executar a ação ritual e formar ao cristão adequadamente para que exerça o seu papel litúrgico.
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[1]Lembra-nos a figura da ovelha que quando anda sozinha por caminhos que lhe parece direito, volta cheia de carrapixos para o pastor limpar a sua lã.
[2]”…Não me aborreço de escrever-vos as mesmas coisas, e é segurança para vós” – Fp.3.1b.
[3]cf. “Lex orandi, lex credendi”.
[4]O Espírito Santo é Agente Vivificador: “E, se o Espírito daquele que dos mortos ressuscitou a Jesus habita em vós, aquele que dos mortos ressuscitou a Cristo também vivificará os vossos corpos mortais, pelo seu Espírito que em vós habita” – Rm.8.11.
[5]Ione BUYST, “Experiência Litúrgica”.
[6]Ione BUYST, “Experiência Litúrgica”.
[7]Ione BUYST, “Experiência Litúrgica”.
[8]Ione BUYST, “Ritualidade”.
[9]Ione BUYST, “Ritualidade”.
[10]”O que é um rito? …É um gesto ou um conjunto de gestos ou ações simbólicas, escolhidas por um determinado grupo de pessoas para expressar sua identidade. Na tradição judaico-cristã, o rito ou ação ritual é sempre memória: atualiza, traz presente, aqui e agora, a intervenção de Deus em determinado momento da história do povo. Para os cristãos, o rito ou ação ritual é sempre memória de Jesus, o Cristo: Façam isto para celebrar a minha memória!” – Ione Buyst.
[11]Ione BUYST, “Barro e Brisa, Convite à Experiência Religiosa Ritual: Para que a ação ritual possa ser fonte de espiritualidade…é necessário que seja realizada de forma a possibilitar uma experiência ritual, uma experiência litúrgica.
[12]Ione BUYST, “Barro e Brisa, Convite à Experiência Religiosa Ritual.
[13]Ione BUYST, “Barro e Brisa, Convite à Experiência Religiosa Ritual: Meditar não se faz necessariamente no silêncio verbal e gestual; além da meditação passiva, ..existe a meditação ativa, quando vivenciamos os gestos, atitudes e movimentos do corpo com todo o nosso ser.
[14]Ione BUYST, Experiência Litúrgica.
[15]Ione BUYST, Experiência Litúrgica.
[16]Ione BUYST, Ritualidade.
[17]Idem.